12/10/2026
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Brasile: il peso del voto e il patto col diavolo

Ballottaggio Brasile Lula e Flávio Bolsonaro

imm. dal web - Lula e Flávio Bolsonaro

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di Bruno Marfé

L’élite brasiliana al bivio

Il Brasile si prepara al ballottaggio del 25 ottobre 2026 spaccato quasi a metà: al primo turno del 4 ottobre Flávio Bolsonaro ha ottenuto il 47,03% dei voti validi e Luiz Inácio Lula da Silva il 45,16%, con uno scarto di meno di due punti percentuali, secondo i dati del Tribunale Superiore Elettorale. Dietro queste percentuali, e dietro la reazione favorevole dei mercati – l’ETF EWZ, che replica la Borsa brasiliana, sarebbe balzato di oltre l’11% nel pre-market – corre una frattura morale che emerge mettendo in dialogo le analisi di João Moreira Salles e di Leonardo Sakamoto con le antiche inquietudini di Henri-Frédéric Amiel.

L’alibi dell’ignoranza e la paura dell’uguaglianza

Come osserva Sakamoto, una parte del Paese tende a criminalizzare gli elettori del Nordest, etichettandoli come ignoranti o dipendenti dal welfare. Questo disprezzo regionale richiama un’insofferenza di stampo elitario a cui già Amiel, più di un secolo e mezzo fa, dava voce: il timore che, nell’urna, il voto di una lavoratrice del sertão pesi quanto quello di un banchiere di Faria Lima. È l’idea, mai del tutto abbandonata, che il peso politico debba essere proporzionale al censo, e che il classismo possa passare per superiorità intellettuale.

Chi «comprende» e sceglie di voltarsi

Qui si innesta la riflessione di Salles. Se all’elettore povero si rimprovera di credere senza capire, l’élite economica, al contrario, «comprende» benissimo. Secondo Salles, chi siede a cena con Flávio Bolsonaro per negoziare appoggi politici sa con chi ha a che fare. Sa della celebrazione pubblica del colonnello Brilhante Ustra, ufficiale della dittatura militare riconosciuto in sede giudiziaria come responsabile di torture. Conosce i rapporti di Fabrício Queiroz, già collaboratore di Flávio, con le milizie di Rio de Janeiro, oggetto di inchieste giudiziarie. E ricorda l’assalto eversivo dell’8 gennaio 2023 e le ripetute minacce alle istituzioni provenienti dall’area bolsonarista. Eppure, osserva Salles, questa élite sceglie di voltare lo sguardo altrove. Giustifica la scelta in nome della «disciplina fiscale» e del contenimento del debito pubblico, che si avvicinerebbe all’82,5% del PIL, ma finge di ignorare che i sussidi più onerosi per le casse dello Stato finiscono spesso nelle sue stesse tasche, sotto forma di esenzioni. Sarebbe tuttavia sbagliato parlare di un blocco compatto: nel mondo imprenditoriale e accademico brasiliano non mancano voci che sostengono Lula, o che prendono le distanze da Flávio Bolsonaro per ragioni di segno opposto. Il punto di Salles riguarda chi, potendo capire, sceglie di non guardare.

La linea rossa della democrazia

Il 25 ottobre il Brasile non sceglierà soltanto un presidente, ma l’architettura istituzionale e sociale che guiderà la più grande democrazia dell’America Latina. Davanti all’alternativa tra accettare politiche sociali bollate come irresponsabilità e legittimare chi flirta con le milizie e con l’apologia della tortura, una parte dell’élite appare pronta a sacrificare la tutela democratica ai propri interessi economici. Il giudizio di Salles è severo, e lo è a ragione quando fa nomi e circostanze; resta da dimostrare che valga per l’intera élite.
Non tutti, del resto, leggono così il primo turno. Per William Waack, commentatore di CNN Brasil, che è intervenuto il 6 ottobre, il vantaggio di Flávio Bolsonaro si spiega anche con un’ondata di stanchezza che va oltre l’anti-petismo e che gli avrebbe portato voti tra elettori che non si riconoscono nel bolsonarismo, consentendogli di superare i risultati del padre. Waack osserva inoltre che la politica brasiliana scommette di rado prima di conoscere il vincitore, e che gli appoggi a Flávio, a cominciare da quelli del Centrão, arrivano in rapida sequenza. È una lettura che non smentisce quella di Salles, ma la completa: il calcolo dell’élite ha una dimensione morale, e insieme risponde a un clima di consenso che un’analisi solo etica rischia di sottovalutare.
Hannah Arendt ricordava che opporsi al male richiede, in fondo, la capacità di tracciare una linea oltre la quale non si va. Chi tollera l’eversione pur di proteggere i propri patrimoni dovrà spiegare dove passi la sua. La linea rossa, in fondo, è questa: nessuna stabilità dei mercati vale la rinuncia a ciò che rende possibile il voto, di una lavoratrice del sertão come di un banchiere di Faria Lima.

ARTICOLO IN PORTOGHESE

O peso do voto e o pacto com o diabo A elite brasileira na encruzilhada

O Brasil se prepara para o segundo turno de 25 de outubro de 2026 dividido quase ao meio: no primeiro turno de 4 de outubro, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos e Luiz Inácio Lula da Silva 45,16%, com uma diferença de menos de dois pontos percentuais, segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral. Por trás dessas porcentagens, e por trás da reação favorável dos mercados – o ETF EWZ, que replica a Bolsa brasileira, teria saltado mais de 11% no pré-mercado –, corre uma fratura moral que emerge ao colocar em diálogo as análises de João Moreira Salles e de Leonardo Sakamoto com as antigas inquietações de Henri-Frédéric Amiel.

O álibi da ignorância e o medo da igualdade 

Como observa Sakamoto, uma parte do país tende a criminalizar os eleitores do Nordeste, rotulando-os como ignorantes ou dependentes do bem-estar social. Esse desprezo regional evoca uma intolerância de cunho elitista à qual Amiel, há mais de um século e meio, já dava voz: o temor de que, na urna, o voto de uma trabalhadora do sertão pese tanto quanto o de um banqueiro da Faria Lima. É a ideia, nunca totalmente abandonada, de que o peso político deve ser proporcional à renda, e que o classismo possa se passar por superioridade intelectual.

Quem «compreende» e escolhe virar o rosto 

Aqui se insere a reflexão de Salles. Se o eleitor pobre é censurado por acreditar sem entender, a elite econômica, pelo contrário, «compreende» muito bem. Segundo Salles, quem senta para jantar com Flávio Bolsonaro a fim de negociar apoios políticos sabe com quem está lidando. Sabe da celebração pública do coronel Brilhante Ustra, oficial da ditadura militar reconhecido judicialmente como responsável por torturas. Conhece as relações de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, com as milícias do Rio de Janeiro, alvo de inquéritos judiciais. E lembra do ataque subversivo de 8 de janeiro de 2023 e das repetidas ameaças às instituições provenientes da ala bolsonarista.
E, no entanto, observa Salles, essa elite escolhe desviar o olhar. Justifica a escolha em nome da «disciplina fiscal» e da contenção da dívida pública, que estaria se aproximando de 82,5% do PIB, mas finge ignorar que os subsídios mais onerosos para os cofres do Estado acabam frequentemente em seus próprios bolsos, na forma de isenções. Seria, no entanto, um erro falar de um bloco coeso: no mundo empresarial e acadêmico brasileiro, não faltam vozes que apoiam Lula, ou que se distanciam de Flávio Bolsonaro por razões de sinal oposto. O ponto de Salles diz respeito àqueles que, podendo entender, escolhem não olhar.

A linha vermelha da democracia 

Em 25 de outubro, o Brasil não escolherá apenas um presidente, mas a arquitetura institucional e social que guiará a maior democracia da América Latina. Diante da alternativa entre aceitar políticas sociais rotuladas como irresponsabilidade e legitimar quem flerta com as milícias e com a apologia à tortura, uma parte da elite parece pronta para sacrificar a tutela democrática aos seus próprios interesses econômicos. O julgamento de Salles é severo, e com razão quando cita nomes e circunstâncias; resta provar que isso valha para toda a elite.
Nem todos, afinal, leem o primeiro turno dessa forma. Para William Waack, comentarista da CNN Brasil, que interveio em 6 de outubro, a vantagem de Flávio Bolsonaro se explica também por uma onda de cansaço que vai além do antipetismo e que lhe teria trazido votos entre eleitores que não se reconhecem no bolsonarismo, permitindo-lhe superar os resultados do pai. Waack observa ainda que a política brasileira raramente aposta antes de conhecer o vencedor, e que os apoios a Flávio, a começar pelos do Centrão, chegam em rápida sequência. É uma leitura que não desmente a de Salles, mas a complementa: o cálculo da elite tem uma dimensão moral, e ao mesmo tempo responde a um clima de consenso que uma análise puramente ética corre o risco de subestimar.
Hannah Arendt lembrava que opor-se ao mal exige, no fundo, a capacidade de traçar uma linha além da qual não se pode ir. Quem tolera a subversão apenas para proteger o próprio patrimônio deverá explicar por onde passa a sua. A linha vermelha, no fundo, é esta: nenhuma estabilidade dos mercados vale a renúncia àquilo que torna possível o voto, tanto de uma trabalhadora do sertão quanto de um banqueiro da Faria Lima.

João Moreira Salles (Rio de Janeiro, 1962) é um documentarista, diretor e produtor brasileiro. Entre seus trabalhos estão Entreatos (2004), construído com material filmado durante a campanha eleitoral de Lula em 2002, e Santiago (2007). Em 2006, fundou a revista mensal de jornalismo narrativo piauí.
Leonardo Sakamoto é jornalista, professor de jornalismo e doutor em Ciências Políticas. Dirige a Repórter Brasil, organização da sociedade civil engajada no combate ao trabalho escravo, e escreve sobre direitos humanos e política para o UOL, um dos maiores portais de informação do Brasil. O tema do ódio em relação ao Nordeste está no centro de sua coluna «Ódio ao Nordeste nas redes é crime recorrente há quatro eleições».
Henri-Frédéric Amiel (Genebra, 1821 – Genebra, 1881) foi um filósofo, escritor e poeta suíço, professor de estética e literatura francesa (a partir de 1849) e, posteriormente, de filosofia (a partir de 1854) na Universidade de Genebra. É conhecido principalmente pelo Journal intime, um diário mantido desde 1839 e publicado em uma seleção póstuma (Fragments d’un journal intime, 1882-1884) e na íntegra apenas entre 1976 e 1994.
William Waack (São Paulo, 1952) é um jornalista brasileiro, formado em jornalismo pela Universidade de São Paulo, com estudos em sociologia e ciências políticas em Mainz. Ex-correspondente internacional de O Estado de S. Paulo na Alemanha, Reino Unido, Rússia e Oriente Médio, trabalhou na Rede Globo de 1996 a 2017 e hoje é comentarista e apresentador da CNN Brasil. Venceu duas vezes o Prêmio Esso de Jornalismo.

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